A rede social Facebook, por vezes, parece estar distante daquilo que chamamos de “vida real”. As pessoas comentam opiniões, críticas, memes, deboches sem muito refletir o impacto ou como vai ser lido por quem está do outro lado da tela. Assim, no dia seis deste mês, em uma postagem que provavelmente não teria um alcance significativo aos alunos do curso de Jornalismo da UFC, o professor Ismar Capistrano, atual coordenador do curso, usou da rede social para comentar sobre o “fundamentalismo em movimentos feministas”, se utilizando diversas vezes do termo “feminazi”.

Ora, até aí não parece nada grave. Mas quando pensamos no machismo, nos vem à cabeça violências físicas, estupros, assédios, agressões, restrições econômicas. E o patriarcado, por sua vez, também age nos detalhes. Vivemos em uma sociedade patriarcal, isso significa que a figura masculina é principal em diversos ambientes da vida, na família, na igreja, na política, nas empresas e por aí vai. Enquanto isso, a figura feminina é vista como subserviente, secundária, que deve obediência à figura masculina e, mais vezes do que gostaríamos de admitir, a mulher não é vista como ser humano, é objetificada, fetichizada ou até demonizada.

Assim surge o feminismo, que se formos explicar como se desenrolou até os dias de hoje, seria necessário nada menos que um livro. Mas podemos simplificar toda a ideia na frase dita pela Chimamanda Adichie: “Feminista, a pessoa que acredita na equidade social, política e econômica dos sexos” (podemos substituir para gêneros). Equidade, foco nesta palavra, pois, embora seja sinônimo de igualdade, ela serve para compensar diferenças sociais, políticas e econômicas enfrentadas pelas minorias nessa sociedade desigual. É isso que o feminismo se pauta e ponto. Questionar que feministas, LGBTs e negros querem ser superiores por exigir direitos e políticas públicas é se utilizar de uma falsa simetria. Da mesma forma que, na postagem, o professor afirma existir “boys maravilhosos se lascando por mulheres lixo” é também se utilizar de uma falsa simetria.

O já dito professor, então, se vale de todo seu conhecimento acadêmico, que lhe garantiu o título de doutor, para fundamentar uma exceção. Como se já não fosse machista o suficiente usar a máxima “mas e os homens?”, Ismar escreve com todas as letras: f e m i n a z i. O que parecia ser absurdo alguém de tamanha “qualis” usar esse termo agressivo, misógino e conservador tornou-se realidade. Mas se não lhe parecer tão absurdo assim, a gente explica: Feminazi é a junção das palavras feminista e nazista, uma forma pejorativa para tratar mulheres que, na visão de homens, são extremas ou radicais, como se buscassem uma superioridade feminina. Vejam só, no entanto, Hitler, durante a Alemanha nazista, reprimiu firmemente o movimento feminista, Kate Millet e Gloria Steinem já escreveram sobre isso. Em um mundo que as mulheres são mortas e violentadas a todo instante nos próprios ambientes domésticos, como elas poderiam conquistar uma superioridade feminina? Parece um pouco difícil, não?

O DATA, enquanto movimento de representação estudantil dos cursos de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará, é contrário a todo e qualquer tipo de opressão, independente da origem. Por isso, não vamos tolerar comportamentos opressores de qualquer um que assuma um cargo tão importante, enquanto representante legal administrativo, de um curso de tamanha importância histórica e responsabilidade social quanto o de Jornalismo. Muitas alunas já vivenciaram situações machistas dentro do curso e da UFC, vindo da parte de alunos, professores, ou servidores. Precisamos que esses entendam a importância dessa luta, que custa diariamente a integridade física, psicológica e moral e a vida de milhares de mulheres, para criar um ambiente seguro para elas dentro da universidade. Dessa forma, entendemos que a postura do citado coordenador não nos representa.

O fundamentalismo não é aquele método ou pensamento que você não concorda. Feministas não são extremistas por não agradar homens. O termo feminazi é infundado, não existe. Pensamos que não seria mais necessário explicar isso em um ambiente de universidade e que preza pelo diálogo. Infelizmente, já que o professor fez mainsplanning (ato de explicar às mulheres algo que obviamente elas sabem) ao implicar saber mais de feminismo que as mulheres maravilhosas que, a todo custo, tentaram dialogar com ele, tornou-se urgente escrever esta nota.

Pedimos que o colegiado do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará repudie o posicionamento do professor. Pedimos apenas consciência dos fatos e do absurdo dito por Ismar fantasiado de mera opinião. Pedimos o repúdio dos alunos também. Esse debate diz respeito a todos. As alunas e as professoras são parte fundamental do curso de jornalismo, elas merecem respeito e admiração por sobreviver todo dia à sociedade machista. O comportamento machista não será mais tolerado, mas não pense nisso como uma forma de “intolerância”, é de sobrevivência.


10 de Setembro de 2017
Diretório Acadêmico Tristão de Athayde  de Comunicação Social da UFC
Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social

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